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18 de maio de 2021

Uma mulher no vocal d 'A Chave do Sol. Conheça a "fase" Verônica Luhr!



“Foi engraçado, mas também bonito ver esse crescimento da banda de forma muito intensa. Parece incrível, mas diante de tantas fases que A Chave do Sol teve, essa foi uma das que mais curti, exatamente pela profunda esperança que sentia quando esse quarteto se fechou com a entrada da Verônica”.
 

(Luiz Domingues em sua comunidade no orkut).

O título de nosso post com certeza irá chocar muitos, mas sim, A CHAVE DO SOL teve uma mulher como vocalista. Ainda que a "fase Verônica" tenha durado menos de um ano, do fim de 1982 ao começo de 1983, os registros desse momento foram totalmente disponibilizados recentemente na internet. O texto a seguir foi escrito pelo baixista Luiz Domingues em forma de relato, mediante a perguntas realizadas por MARINHO ROCKER  e MARCÃO no orkut e copilado por Willba Dissidente. Posteriormente (entre junho e julho de 2014), novos fatos e fotos foram adicionados de acordo com a autobiografia de Luiz Domingues.

Este post também integra nosso esforço em traçar uma biografia da banda de maneira análoga a que os professores hoje lecionam História: por pontos específicos e não seguindo a linha temporal; por isso já escrevi sobre os anos sem nenhum membro oficial, A CHAVE sem sol, e agora abordo os primórdios da banda. Aproveite a viagem e ouça  a música ao final!

A Era Verônica Luhr: a Diva dos Olhos Azuis.
OUTUBRO/1982 À ABRIL/1983.



Estávamos em Outubro de 1982, e o guitarrista Rubens Gióia lançou a idéia de que A CHAVE DO SOL precisava de um  frontman. Ele então se lembrou de uma garota que ele havia visto cantando de forma amadora entre 1978 e 1980. No que pese a baixa qualidade do equipamento e o clima "de brincadeira", fortuito, da ocasião, Rubens convenceu os demais membros a fazerem uma audição com essa moça, que dizia ele "impressionava pela beleza física e a fantástica voz".  Loira, olhos azuis, media mais de 1,80 e trabalhava como modelo do estilista Ney Galvão (à época rival de Clodovil). Quando então a garota começou a cantar, ganhou a vaga: "tinha uma voz incrível, lembrando ETTA JAMES, MAGGIE BELL e TINA TURNER"!


Verônica Luhr com A CHAVE DO SOL no Victoria Pub.

Ela se chamava Verônica Luhr. Era uma moça simples e bem agradável no tato social. "De certa forma, seguia a cartilha da maioria das meninas que ingressam nessa carreira de modelo, ou seja, vem de famílias simples dos estados do Sul, principalmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul e são descendentes de italianos, alemães ou de pessoas de países do leste europeu", conta Luiz Domingues.




"Lembro-me que o fizemos de forma artesanal e o copiamos mediante xerox. Ele ficou tosco, grotesco mesmo. Vendo-o hoje em dia, parece algo deliberadamente feito daquela forma, dando-lhe aura  'cool' mas na verdade, era um horror feito nas coxas e de forma muito apressada para suprir a necessidade premente que tínhamos".


Vale ressaltar que nesta época A CHAVE DO SOL ainda tinha um set-list basicamente de covers do Rock 'n' Roll. Já existia material próprio, que continuava a ser composto.  Por isso não importou que o inglês de Verônica ainda fosse "macarrônico" na ocasião. Não obstante , a banda incluiu "Proud Mary" (CREEDENCE) e "Acid Queen" (THE WHO), ambas na versão TINA TURNER, para que a moça soltasse a voz. Verônica tinha uma afinação excelente, porém nenhuma noção musical, era um talento bruto. "Arranjos, tonalidade, andamento", disso ela nada entendia. Porém, dando-lhe o acorde certo, ela cantava direitinho. Nas palavras do baixista: o vozeirão natural e bom ouvido eram suas melhores características". Como definiu mais tarde, "havíamos encontrado uma jóia rara, ainda que bruta, a carecer apenas de lapidação".

“Começou um boca-a-boca na rua, de que havia uma banda muito louca no Devil's, com um guitarrista que tocava JIMI HENDRIX imitando a performance de tocar nas costas e com os dentes do Hendrix; Um baixista alucinado que tocava com um chapéu pontudo de bruxo e uma vocalista incrivél que cantava muito com uma performance de palco muito animada...".

O show inicial da nova fase, em 20/11/1982, foi no colégio Manuel de Paiva. A irmã do Rubens, Rosana Gióia, estava junto fazendo os backing vocals. Foi um sucesso. Duzentas e cinquenta pessoas prestigiaram a apresentação, que teve uivos, aplausos e assédio no camarim, sendo a primeira vez que o grupo se apresentou "para uma platéia que não fosse exclusivamente de parentes e amigos". Mais e mais shows foram pintando: "Verônica assumiria uma importância tão grande na banda, que por conta de sua entrada, portas importantes se abririam logo a seguir, conforme esclarecerei logo mais", declarou o baixista no orkut.


Nota no Jornal  Folha da Tarde sobre show no Devil's Bar em 1982.

Nesta época, o circuito roqueiro precorrido pela A CHAVE DO SOL era o Deixa Falar, Água Benta Bar e novíssima casa Devil's, de propriedade de Dona Sabine, na 13 de Maio (Bexiga). Lá a banda fez uma temporada logo após a apresentação no colégio. Esse foi o período mais divertido dessa fase, em princípios de 1983.  Além das dificuldades técnicas, a Verônica apresentava outro empecilho, este mais grave: nervosismo antes de entrar no palco. Para criar aquela coragem extra na hora de subir no palco, ela forçava a extroversão, o que levava à situações recordadas pelo baixista: "em meio ao seu imprevisível arsenal de encenações improvisadas, lembro-me em ouvi-la a falar coisas inusitadas, criar uma linha gestual exótica e assim, a reação do público era de frenesi". Uma outra vez, após um movimento brusco, ela tropeçou e caiu no palco, se levantando rapidamente com o público acreditando ser parte do show. Porém Verônica não era a única elétrica no palco, já que A CHAVE DO SOL, nunca foi uma banda de ficar parada: Rubens tinha seus momentos hendrixianos, Luiz e Zé Luis extrapolavam no mise-en-scené, sem prejuízo à performance.



"O chapéu foi algo totalmente improvisado. Eu achei-o no quarto de despejo da casa do Rubens, enquanto o arrumávamos para se tornar a nossa sala de ensaios. Devia ser uma peça de alguma festa de fantasia que nem o Rubens se lembrava. Pedi para usá-lo de brincadeira e ficou legal, me lembrava o Ritchie Blackmore naquele promo do DEEP PURPLE...".
O baixista também relembrou que "eram comuns os gracejos masculinos (dirigidos à cantora), mas não podíamos evitar essas reações. O Rubens que era mais esquentado, esboçava reagir, mas para não estragar as apresentações, se continha em seu ímpeto protetor". 

Algumas vezes, rapazes mais ousados saiam de suas mesas para ficar mais perto do palco e da vocalista. Uma única vez um deles tentou escalar o palco de mais de dois metros para estar perto da cantora. Na ocasião, Wagner "Sabbath", amigo que acompanhava a banda e será devidamente abordado no futuro, impediu o homem em seu intento abusivo.


 O último show daquele ano de 1982 foi a festa de Reivellon na casa do guitarrista Rubens Gióia; o qual foi mais importante no futuro do que na sua realização. No dia seguinte, o primeiro de 1983, o grupo se apresentou no Café Palheta's, num show de igual importância arqueológica para o futuro.


 Folha de São Paulo Show Água Benta 6 de janeiro de 1983.

As coisas iam de vento em popa, e A CHAVE DO SOL começou 1983 fechando uma temporada de dois meses no Victória Pub. Nesta casa, se apresentaram promissores nomes da emergente cena rock nacional, inclusive os cariocas do HERVA DOCE (de quem esse que vos escreve é fã), que á época haviam feito a abertura do show do KISS no Rio de Janeiro.  Na primeira noite, nossos amigos tocaram no palco secundário, mas depois passaram a dividir a gig principal com o TUTTI-FRUTTI ou com o FICKLE PICKLE, dependendo da escala da noite. Tudo estava perfeito e promissor, não?

Passagem de som do último show no Victoria Pub, no qual Verônica não pode tocar por estar resfriada.

O cachê era extremamente alto se comparado ao que o grupo estava acostumado até então. Logo na primeira reunião do contrato, um dos gerente da casa os passou o regulamento do estabelecimento , horário de entrada para a passagem de som, horário de show e os advertiu sobre o cuidado em não falar "palavrões" ao microfone... além de pedir para A CHAVE DO SOL se trajar o menos riponga possível, "ainda bem que não pediu para cortarmos os cabelos", ri o baixista ao relembrar o episódio. Outra imposição,  repertório tinha que conter alguns covers conhecidos e não só música autoral, além de que o volume não poderia ser excessivo. A pior de todas restrições era a clausula de exclusividade. A CHAVE DO SOL, enquanto durasse o contrato, estava proibida de agendar shows em outros lugares de São Paulo. Aparentemente, isso não era tão problemático assim; porém quando o contrato não foi renovado, como veremos à seguir, isso geraria perda dos antigos contatos.





Interior e público no Victoria Pub (Alameda Lorena, 1604, São Paulo/SP). 1982 / 1983.

Não obstante tantas proibições, a banda estava mais que feliz pela vitória que era se apresentar no Victoria aquela época. Músicos famosos, modelos, atores consagrados da TV, gente de Teatro e Cinema etc iam regularmente às noitadas no Victoria.  O público era mais playboy do que rocker. Mesmo que demonstrando grande desinteresse pelos grupos, inclusive pelo TUTTI-FRUTTI (que nesta fase fazia mais covers que sons autorais), sempre dançavam e aplaudiam as bandas, gerando bem-estar nas apresentações.




A CHAVE DO SOL se apresentava nas noites de terça e quinta-feira. Os shows de grandes bandas do emergente "movimento Rock BR", como BARÃO VERMELHO,  KID ABELHA e outras, aos sábados e sextas-feiras. O power trio paulista nunca assistiu apresentação dos mainstream, porém esperava que a proximidade com os nomes badalados, como que por osmose, acabasse por ajudar a alavancar a carreira d' A CHAVE DO SOL. Os músicos foram assediados por um dito produtor de "New Wave", que sugeriu que além de cortarem as madeixas, Rubens e Luiz pintassem cada um o cabelo de uma cor. 

Em relação ao FICKLE PICKLE, este grupo tinha em sua formação os futuros GOLPE DE ESTADO Nelson Brito e Paulo Zinner. Logo formou-se um forte vinculo entre os membros das duas bandas. Muitos discos do GOLPE DE ESTADO tem agradecimentos a Luiz Domingues no encarte, pela ajuda e auxílio deste à banda. Porém, no primeiro contato foi o baixista Nelson Brito que ajudou Domingues. "O fato é que eu estava sem amplificador nessa época e usei o aparelho do Nelson nessas apresentações no Victoria (...)  mal havia me conhecido e disponibilizou seu equipamento, numa gentileza que selou nossa amizade, de forma instantânea".



Fachada do Victoria Pub. Por volta de 1982, 1983. Fonte: Internet livre.

Ainda que estivessem proibidos de se apresentar fora do Victoria, A CHAVE DO SOL tocou, dentro da casa noturna, numa festa particular da Rede Globo. Tratava-se da comemoração pelo encerramento da mini série "Bandidos da Falange". Do programa, que abordava o submundo do crime no Rio de Janeiro", estavam presentes toda a equipe técnica, diretores e atores. Gente como Betty Faria, Roberto Bonfim, Gracindo Júnior e Júlia Lemmertz se esbaldaram e dançaram ao som d' A CHAVE DO SOL.

Pouco antes do final da temporada d' A CHAVE DO SOL no Victoria Pub, houve um acidente no palco durante a canção "O Contrário de Nada é Nada", d'OS MUTANTES e por descuido do baixista que se movia de maneira desarticulada enquanto tocava, a vocalista, infelizmente, foi acertada pela mão (headstoke) do instrumento de quatro cordas. O grupo continuou tocando e só após o fim do show o mesmo pode se desculpar. Felizmente, o acidente que poderia ter sido grave, não teve consequências.





Ao final da temporada de show no Victoria Pub, a cantora os informou que havia recebido a proposta de gravar um disco solo com contrato com uma gravadora major, sendo acompanhada por uma banda contratada.  Devemos lembrar que Nelson Brito e Paulo Zinner, novamente, à época no FICKLE PICKLE, foram empresariados nessa época por um produtor que conheceram no Victoria Pub e inclusive lançaram um disco de New Wave, o PEPINO IRRITADIÇO. Verônica então decidiu abandonar A CHAVE DO SOL e seguir carreira solo sendo a protagonista de sua própria banda. "Ela sonhou com a possibilidade de ascensão e devo acrescentar que foi uma aspiração legítima de sua parte, portanto, nesse aspecto não caberia questionamento da nossa parte", garante o baixista.

“Sendo assim, quando acabou o contrato com o Victoria, ela saiu da A Chave do Sol e nós ficamos sem perspectivas imediatas, pois todo o embalo maravilhoso que havíamos pego desde outubro de 1982, foi para o ralo, pois estávamos sem outras datas e tendo que procurar às pressas um novo vocalista ou voltarmos ao formato de Power Trio, tendo que reestruturar todo o repertório para o Rubens ou o Zé Luis cantarem. Isso sem contar o prejuízo em perder uma vocalista do potencial sensacional que ela tinha. Se tivéssemos prosseguido e com a sorte de arrumarmos um produtor...”


A cantora estava resfriada e não compareceu no último show, forçando A CHAVE DO SOL a improvisar o repertório. O grupo ainda teve a desagradável notícia que seu contrato no Victoria Pub não seria renovado. Estávamos em abril de 1983 e A CHAVE DO SOL entrava em sua primeira curva descendente. Viriam três meses de aspereza pela frente, antes que altos da banda voltassem a sobrepujar os baixos...

Rubens arrasando nos trejeitos hendrixianos no Victoria Pub em começo de 1983.

"Não acompanhei se ela realmente gravou na época ou logo depois disso, infelizmente. Tomara que sim", afirma Luiz Domingues. Ele continua, afirmando que só em 1991 que ele foi ter outra informação da Verônica: "a vi no programa do Clodovil, na TV Gazeta, se apresentando acompanhada de uma orquestra, no teatro de arame de Curitiba. Era um tema "...com um arranjo bem conservador, mas mesmo assim, ela cantou muito bem, naturalmente e eu fiquei feliz por vê-la a atuar".

Foram períodos difíceis quando a vocalista se desligou do grupo e com isso os tirou de uma das melhores casas de show da época. Mágoas, ressentimentos ou similares? Não. "Ela comunicou-nos a sua decisão de uma forma decidida, certamente estava convicta de sua escolha. Tudo bem, foi uma aposta válida de sua parte", o baixista não receia em dizer. Luiz, ainda pondera e não poupa elogios à cantora de vida curta em sua banda, confira abaixo:

"A Verônica esmagaria impiedosamente cantoras dessa cena que estouraram, como Paula Toller, Virginie e Dulce Quental entre outras e só encontraria uma rival à altura na Cássia Eller. Por outro lado, estávamos em 1982 e a Cássia só estourou no meio/fim dos anos noventa, portanto, era outra geração".




No Victoria Pub, A CHAVE DO SOL tocou nos dias 1º, 2, 3, 9, 10, 17 e 23 de fevereiro de 1983, com públicos respectivos de 70, 120, 150, 200, 300, 170 e 250 pessoas ("nos assistindo, mas não refletindo o número de pessoas dentro da casa, pois eram muitos os ambientes e as pessoas se espalhavam"). Em março de 1983, tocamos nos dias 2, 9, 10, 15, 22 e 29, com público respectivo de 200, 250, 200, 300, 20 e 15 pessoas nos assistindo. O derradeiro show, ocorreu em 6 de abril de 1983, sem a presença da Verônica Luhr, com melancólico público de apenas 10 pessoas na plateia.

Encerrando este capítulo,  existem duas versões da mesmas gravações d' A CHAVE DO SOL  com Verônica Luhr nos vocais. Primeiro em 2012, o site Orra Meu conseguiu vencer essa batalha contra a "Deterioração temporal do K-7", possibilitando aos fãs poderem ouvir a Verônica ao ler a impressionante passagem dela pela A CHAVE DO SOL.



A gravação da mesma se deu de maneira inusitada. No show de 31/12/1982,  de última hora, Rubens pegou uma fita gravada no seu carro. Espetou-se então um tape-deck caseiro na mesa do P.A. Gianinni com a referida fita K7. Do lado A gravou-se esse show, do lado B, o do Café Palheta's do dia seguinte. Com muita microfonia e sem possibilidade posterior de edição, o K7 ficou guardado por 30 anos, gerando muito trabalho para ser recuperado. 





Só no segundo semestre de  2020 que registros completos com a vocalista Verônica Luhr foram disponibilizados. Trata-se do primeiro volume dos bootlegs, chamado "Ao Vivo 1982 - 1983". Tal lançamento faz parte da série de seis discos piratas oficiais lançados pelo baixista Luiz Domingues. Neste CD as músicas estão completas e com qualidade muito superiores que as disponibilizadas em 2012.





 "(...) o fato é que ela cantava como uma Diva do Soul, Blues e Rock'n' Roll. Se ela tivesse permanecido na formação da nossa banda e se assim nós tivéssemos tido a chance de encontrarmo-nos com um produtor de porte em 1983, quando o BR-Rock 80's explodiu definitivamente na mídia mainstream, teríamos certamente chegado ao estrelato...".

Luiz Domingues.

Voltando ao começo de 1983, três meses de dificuldades se seguiram. Aguarde nosso próximo capítulo!

27 de janeiro de 2021

Luiz Domingues: mensagem de despedida a Rubens Gióia.

Amigos: hoje, 15 de janeiro de 2021, eu tive a duríssima notícia do falecimento do meu amigo e companheiro de uma bela jornada na música, o guitarrista, Rubens Gióia.

Nos conhecemos por volta de junho de 1982, e identificados por termos os mesmos ideais em torno do Rock, fundamos juntos com José Luiz Dinola, a nossa querida banda, A CHAVE DO SOL, em julho. Em setembro de 1982, fizemos o show de estreia e dali em diante, construímos uma obra em conjunto.
Tivemos ótimos momentos de alegrias compartilhadas, obras eternizadas para nos orgulharmos, rimos muito, choramos perdas, trabalhamos intensamente e sobretudo, sonhamos coletivamente em perfeita sintonia.




Como guitarrista, Rubens foi um talento nato, forjado pelas mais lindas tradições do Rock das décadas de cinquenta, sessenta e setenta. Entre tantas influências fortes que teve, cito músicos como: Jimi Hendrix, Johnny Winter, Carlos Santana e Alvin Lee, sobretudo, mas ele admirava outros, igualmente, Leslie West, por exemplo e que também nos deixou recentemente.

Ele também teve uma bela história com outras bandas. Foi tripulante da nobre nave da PATRULHA DO ESPAÇO, esteve em uma formação da SANTA GANG e participou do YANKEE.

Ao final de 2019, nós articulamos juntos um show reunião d'A CHAVE DO SOL e que teve como data acertada pelo produtor Geraldo Guimarães, nosso amigo em comum, "Gegê", o dia 15 de julho de 2020. Para tal, produzimos uma série de seis bootlegs da nossa banda a conter material raro e oriundo de gravações preservadas em fitas K7 e que seriam lançados no dia desse show, que aconteceria no Teatro Cacilda Becker do bairro da Lapa, em São Paulo. Ele estava feliz pela possibilidade do show e pelos discos bootlegs que resgatam muitas pérolas escondidas da nossa história, incluso material inédito, não gravado em discos oficiais.

Infelizmente, fomos surpreendidos pela pandemia mundial e a esperança foi que superássemos essa situação para remarcarmos o show para quando fosse seguro e possível para todos, em algum dia de 2021, mas hoje, 15 de janeiro de 2021, esta possibilidade foi ceifada. Uma grande pena para nós e todos os fãs do nosso trabalho.

Contudo, pior que isso é saber que o amigo não está mais entre nós, isso sim, nos dilacera.
Agradeço à todos os amigos e admiradores d' A CHAVE DO SOL que enviaram-me votos de condolências, reservadamente pelo inbox do Facebook e por outras redes sociais. Acreditem, cada mensagem dessas é um alento para suportar a dor.

A CHAVE DO SOL foi um sonho que ele acalentou desde a sua tenra infância ao ouvir os discos de seu irmão mais velho, Rafael (e este que também não está mais entre nós) e certamente que ele concretizou tal aspiração, com todos os méritos.

Desejo força para a família dele: sua mãe, filho, companheira, irmãs, cunhados e sobrinhos. Aos amigos e colegas de jornadas na música e no radialismo, onde ele também escreveu uma história bonita através do seu programa transmitido pela Webradio MKK (Blog do Rubão) e no cerimonial do governo municipal onde ele prestou um serviço relevante à nossa cidade de São Paulo.

Descanse em paz, meu amigo. "Um minuto Além" e nos encontraremos novamente em meio à "Luz"!

Luiz Domingues

17 de novembro de 2016

Quinto Capitulo da Biografia da banda;

Dos vários motivos que o público que viveu os anos 1980 tem para recordar A CHAVE DO SOL, o mais forte é o Programa Fábrica do Som. Durando de março de 1983 a julho do ano seguinte, o periódico semanal televisivo era apresentado por Tadeu Jungle, que se sempre que podia alfinetava o então governo de exceção comandado pelos milicos. Foi lá que a banda fez seis apresentações, cinco televisionadas, e à partir dai os convites para shows, novas aparições em televisão e o reconhecimento de crítica e público efetivamente veio. No período de um em que participou d' A FÁBRICA DO SOM, conta-se que a Tv Cultura recebeu 18 mil cartas (!!!) citando A CHAVE DO SOL.

Acompanhe como o anonimato d' A CHAVE DO SOL acabou em 16 de julho de 1983.






Esse texto é um condensado dos capítulos cincos e seis da autobiografia na música, seção A CHAVE DO SOL, do baixista Luiz Domingues.

FILHO, NÃO FAÇA TANTAS CARETAS QUANDO TOCAR NA TEVÊ:  A Chave do Sol na Fábrica do Som.

De modo amplo, quando se fala em "Fábrica do Som", o povo já lembra de TITÃS, BARÃO VERMELHO, IRA! e outros nomes que estouraram na mídia cunhando o Rock BR nos anos oitenta. Não obstante, outros conjuntos que não os midiáticos também fizeram participações no programa. Ainda que de caráter educativo, a rede Cultura, que é estatal, cravava quatro pontos de audiência nas tardes de sábado. "Talvez", just maybe,  A CHAVE DO SOL tenha sido a banda mais presente no programa.

"Apesar do programa ser o berço de inúmeras bandas de estética 'moderna', oriundas do pós-punk, e derivados dessa tendência, o público era em essência formado por hippies anacrônicos, seguidores de Raul Seixas etc. Dessa forma, o nosso som caía como uma luva, pois tocávamos na contramão da estética vigente, e sua ruindade musical inerente e indecente...".
LUIZ DOMINGUES.

Gravados às terças-feiras no Teatro do Sesc Pompéia, Z/N de São Paulo, a entrada era gratuita. Se cabiam confortavelmente 800 pessoas nas dependências da casa, em dias de gravação acumulavam-se 1500 fãs e mais gente do lado de fora querendo entrar. Muito infelizmente, muitas vezes a Policia Militar era chamada para impedir tumultos. Esse era o lado de fora do Teatro, pois dentro a confusão era análoga. Eram funcionários, do Sesc, da TV Cultura, os técnicos de PA e inúmeros músicos em vai e vem com instrumentos e equipamentos diversos. Foi nesse pandemônio que A CHAVE DO SOL brilhou pela primeira vez no programa, gravando em em 12/07/1983.

A PRIMEIRA APRESENTAÇÃO.

E essa mesma platéia barulhenta que abraçou A CHAVE DO SOL em todas as apresentações, desde a primeira. Além das mais de mil pessoas que os assistiam in loco, haviam incontáveis outros os acompanhando pela televisão; além de olheiros de gravadoras, executivos musicais e a cúpula da TV Cultura. À principio, o grupo teve alguma indisposição com os técnicos de som, pelo guitarrista Rubens Gióia querer usar seu amplificador Music Man ao invés do Palmer e Zé Luis não abrir mão de sua Tama em detrimento da Gope que a produção dispunha. Passado esse perreio, todo o contato com a produção foi tranquilo.


Nota na Folha de SP
Das demais atrações, apenas o vocalista do TONELADA E SEUS KILINHOS (grupo de Rock satírico), era conhecido do Rubens. A CHAVE DO SOL conhecia o trabalho dos violonistas do DUO FEL (jazz erudito de raiz brasileira instrumental) e a cantora Tetê Espíndola, do movimento "Vanguarda Paulista"; os demais eram ilustres desconhecidos como nosso trio; pois ainda que esses nove meses de trabalho tenham sido árduos nada significavam ao grande público. Ruídos vindos da platéia, gente correndo, a banda esperava no camarim após o soundcheck e finalmente foi chamada para tocar.

Expectativa no ar, desânimo nos técnicos, mas logo o amplificador Music Man foi montado e A CHAVE DO SOL mandou ver com "Utopia". De largada com palmas tímidas sendo substituídas pelo pessoal dançando, fazendo air guitar, enfim, aproveitando o som. A CHAVE DO SOL, em seu som carismático animou aquela galera. Em breve, ela seriam conquistada de verdade.



Ao fim desse rock, apresentador Tadeu falava com a platéia rapidamente e logo anunciou outra canção. Nesse ínterim, alguém na platéia "xingava" o Domingues de "lagartixa". O mesmo, sem bronzeado algum, estava descamisado trajando macacão de jardineiro e lenço amarrado no pescoço. Felizmente, foi só um chiste e não se tornou viral comprometendo o espetáculo.



Os produtores se sentiram desconfortáveis com a música seguinte, "Crisis Maya", pois essa tem quase o dobro de duração dos três minutos esperados por eles! A platéia ficou impressionada com esse tema jazzistico, cheio de desenhos individuais e nem a leve desafinada na Fender Stratocaster de Gióia - pelo uso "abusivo" da alavanca - atrapalhou. Enquanto Rubens afinava, após a música, o conjunto foi entrevistado pela apresentadora programas infantis Silvana Teixeira, que eles haviam encontrado um pouco antes usando o banheiro do camarim deles. Ainda que o líder fosse o baixista Luiz Domingues, a moça foi levada a crer que 'quem canta é quem manda', indo entrevistar o baterista Zé Luis.

"Vi gente pulando, como se estivesse numa arquibancada de estádio, comemorando um gol. Foi uma explosão incrível de euforia, que extrapolava a mais otimista previsão que poderíamos ter feito".
LUIZ DOMINGUES.

Então, veio a melhor performance da noite, e a canção mais longa, a única que foi ao ar. Luiz iniciou o riff no baixo para seus parceiros entrosados e tão tranquilos quanto para prosseguirem a canção. As reações da platéia foram em crescendo, passando pelo solo de baixo em que nosso mestre das quatro cordas fez inúmeras caretas, trejeitos e entrou na onda do camera-man proporcionando enquadramento nada usuais, mas muito apreciados. Chegou o solo de bateria, e numa platéia que começou sem saber o que ia ver estava no máximo de empolgação. Rubens, o que toca "mais parado do trio", tinha a seu favor seus malabarismos à la JIMI HENDRIX que arrancaram muitos aplausos.



E o público pediu "bis"! Claro que tal não seria possível e logo o grupo foi levado pela produção ao camarim, onde além de calorosa recepção cederam uma entrevista à radio Cultura AM. Foram feitas as perguntas de praxe a um artista desconhecido incluindo as perspectivas da gravação de um disco...

O grupo deixou as dependências do Sesc Pompeia bem animado. Nada mal para uma noite de terça-feira, hein? No dia seguinte, pela primeira vez na carreira, o baixista Luiz Domingues foi reconhecido por um fã na rua. Um moço o pediu autógrafo no metro Tatuapé. E o programa só iria ao ar no sábado! Aquele havia sido o maior público da banda até então.



No sábado,16, o power trio se reuniu na casa de Rubens Gióia para primeiro se ouvir na Rádio Cultura AM (entrevista mais execução de "18 Horas") para depois ter se ver na televisão. Uma anedota é que uns dias depois, o baixista Luiz Domingues encontrou com seu pai - então relutante à carreira escolhida de músico - que lhe aconselhou a não fazer tantas caretas assim quando tocasse na televisão!

"Bem, realmente olhando o vídeo, acho que exagerei um pouco, mas...eu tinha 23 anos de idade, vinha de uma luta de 7 anos para chegar num momento daquele, e sentindo a banda explodindo, e com o público respondendo, empolguei-me, naturalmente...".
LUIZ DOMINGUES.




A SEGUNDA APRESENTAÇÃO.

Pouco depois a banda foi contatada pela TV Cultura informando que muitas cartas estavam chegando perguntando, querendo saber mais d' A CHAVE DO SOL, pedindo que eles voltassem ao programa. E eles logo voltariam de uma maneira inusitada: num rápido anúncio às vésperas de um show que o conjunto fez no no bar "Espaço Aberto", no chique bairro de Pinheiros (à época sem muita tradição em casas noturnas, acredite), em seis de setembro. Era um dia de semana num bar sem laços com o Rock'n'Roll e lá estavam mais de 100 cabeludos e rockers esperando pela A CHAVE DO SOL. Muito infelizmente, o bar cobrava um cachet salgado e metade desse público dispersou frustrado sem poder assistir ao espetáculo.



À partir de então, até julho do ano seguinte, o baixista Luiz Domingues voltou a fazer parte do LÍNGUA DE TRAPO (como será explorado no capítulo posterior) e após uma "decepção quanto a escolha de gravadoras", A CHAVE DO SOL voltou ao Fábrica do Som para participar de uma data especial comemorando a aniversário de JIMI HENDRIX (que se estivesse vivo completaria então 41 anos).

Assim, em 27 de setembro de 1983, a banda voltou mais confiante para o teatro do Sesc Pompeia, ainda que esse estivesse (ainda) mais cheio! Para começar, os meninos levaram o Jazz-Rock instrumental "Atila", com bateria e baixo super ousados. Agitando o mais frenético que podia, Luiz espantou-se com a expressão de espanto de João Dinola, irmão do baterista José; após vários shows para menos de 100 pessoas, ver o grupo na TV com um teatro lotado o fez crer que A CHAVE DO SOL ia estourar, não havia dúvidas! Todavia...



A segunda faixa executada foi "Dança das Sombras". Esse tema, com mais de oito minutos, começava num funk setentista puxado pela bateria para se converter num Jazz com muita liberdade de improviso e convenções estrategicamente coladas. E a adrenalina à mil por hora fez bem aos improvisos e acrescentaram ondas de ovações da platéia a cada malabarismo hendrixiano de Rubens Gióia. Ressaltamos que dessa vez, Zé Luis tocou com a bateria Gope da produção. Se você reparar nos vídeos, somente na primeira apresentação o músico pode usar sua própria bateria.

A ideia era só tocar essas duas músicas mesmo, dado a duração inusitada das mesmas. Todavia, por um artista ter faltado, a produção pediu que A CHAVE DO SOL tocasse em uma jam session com outra banda que estava se apresentando naquela noite, o ARARA DE NEON; um conjunto de Reggae - pop! Ficou acertada que a música seria "Johnny B. Good" do CHUCK BERRY. Com harmonia 'quadrada' de três acordes, era menos improvável que alguém errasse por não ensaiar o número antes! Zé Luis ficou na bateria, com o batera do Arara na percussão, Luiz ficou nas escalas de Rock no baixo e baixista do Arara fazendo frases soltas, com Rubens e o outro guitarrista combinando rodízio de solos. Ideias furadas e inusitadas que só os produtores de TV tem.... e que vão ao ar! Não que tenha sido um desastre, mas para ambas as bandas teria sido melhor televisionar um registro próprio.



A gravação dessa jam existe, mas Luiz Domingues ainda não a disponibilizou.

"O lado bom de ter participado disso, foi que ganhamos mais alguns pontos no conceito do pessoal da produção, e aliado ao sucesso evidente que fizéramos de público, tanto ao vivo, quanto telespectadores (muito mais cartas chegaram à TV Cultura, ficamos sabendo), selamos a nossa participação no programa especial de um ano de Fábrica do Som, a ser gravado no mês posterior, novembro de 1983".
LUIZ DOMINGUES.


De volta ao camarim, A CHAVE DO SOL foi novamente entrevista pela Rádio Cultura A.M. com perguntas similares. Dessa vez, contudo, o a gravação do disco já era mais certa.... mas só ocorreria no próximo ano.


A TERCEIRA PARTICIPAÇÃO.



Após a festa de um ano da banda, o festival Fico e a primeira apresentação em Atibaia, A CHAVE DO SOL regressou ao programa em sua festa de primeiro aniversário; o que podemos dizer foram três festas comemorativas na sequência! Nessa feita, entretanto, a gravação foi no Circo Mágico - estacionamento do Parque de Exposições do Anhembi e com entrada paga.

Honrados com o convite estava nosso power trio, pois se tratava de uma edição dos "melhores daquele ano". Muito infelizmente, A CHAVE DO SOL foi o número de abertura, mas a pedido deles próprios, pois como dividiam o baixista com o LÍNGUA DE TRAPO, o Domingues tinha de correr para cumprir o outro show no mesmo dia, esse no Teatro TUCA, em Perdizes, Zona Oeste. O único outro grupo que eles viram foi o PREMEDITANDO O BREQUE.

Ao contrário da participação anterior, dessa vez a banda atacou com dois temas cantados. O primeiro, que foi ao ar, foi "Luz". Ele foi escolhido pela certeza de que entraria no disco que a ser lançado. Como nota cômica, durante essa música, o baixista Luiz Domingues deu tropeço enquanto agitava para soltar o cabo de instrumento, que havia prendido em sua perna. Você consegue identificar esse momento no vídeo?





O próximo som apresentado permanece inédito de tudo até hoje. Se chama "Reflexões Desconexas"; um Hard-Rock com pegada de Jazz-Rock, e nítida influência de MPB setentista, principalmente por conta de um contraponto vocal que o Zé Luiz criou como arranjo, executado por ele e Domingues, mesclando-se ao vocal solo do Rubens.

"'Reflexões Desconexas' era muito complexa; com linha de baixo e bateria bem requintadas; convenções; uma bela melodia "JeffBeckiana" numa das inúmeras intervenções do Rubens; mudanças de ritmo bruscas; e essa parte mezzo-MPB, que causava uma deliciosa estranheza aos ouvidos de Rockers mais radicais".
LUIZ DOMINGUES.

Uma outra anedota se passou, adivinhem, com Luiz Domingues. Em meio à performance incandescida do Homem-Baixo, ele bateu a mão (headstock) do instrumento em algum lugar, desafinando as cordas Ré (D) e Sól (G). O músico ainda tentou afiná-las no meio da música, sem conseguir e ainda perdeu um pouco a concentração e o tempo. 99% do público não percebeu e nem os músicos saíram cabisbaixos, mas um pouco chateados.

"Salvo a minha pressa, e essa falha em "Reflexões Desconexas", foi mais uma boa apresentação na Fábrica do Som, o que só reforçava a ideia que os tempos de anonimato para A CHAVE DO SOL certamente haviam ficado para trás, e dessa maneira, vivíamos uma nova etapa, desde quando nos apresentamos na Fábrica do Som, em julho daquele mesmo ano, pela primeira vez".
LUIZ DOMINGUES.

A QUARTA APRESENTAÇÃO.

Dessa apresentação em novembro de 1983, A CHAVE DO SOL ficou até maio do ano posterior sem fazer shows, se dedicando exclusivamente a gravar seu compacto de estréia. E o retorno aos palcos se deu novamente na Fábrica do Som. Em 27 de março, exibido dia 31, a banda tocou pela primeira vez sons repetidos no periódico televisivo; sendo que da trinca "Luz", "Crisis Maya" e "Atila", as duas últimas foram televisionadas.



Considerada a apresentação mais comedida das seis, tanto em termos técnicos como de recepcidade do público, os "gatinhos" da Chave do Sol (como são chamados no começo do vídeo acima), tiveram uma performance honesta. Nesses vídeos, vemos Rubens Gióia com o cabelo bem mais curto que o normal. Acontece que ele havia sido padrinho de casamento de sua irmã mais velha, a Roseli; que não aceitou um cabeludão chegando na igreja, mesmo que fosse de rabo de cavalo!



Um outro ponto a ser mencionado é que Zé Luis usaria uma camiseta com o logo da banda, vamos explicar isso no capítulo seguinte, mas a mesma não ficou pronta para esse show. Dessa vez  sem entrevista.

A QUINTA APRESENTAÇÃO.

Essa foi a mais inusitada de todas, e inesperada, acontecendo para evitar briga! Há bem da verdade, A CHAVE DO SOL estava agendada para se apresentar no programa dia 26 de junho. Mas, a produção os convidou para pintar lá uma semana antes só ver e curtir a gravação do programa. Lá chegando, nosso trio foi encaminhado para sentar no mezanino.

O pessoal que veio para o show via A CHAVE DO SOL sentada lá, aplaudia, comentava com os amigos, rolava aquele burburinho, de banda que está "estourada no underground"; mesmo que o disco ainda não tivesse sido lançado. Então, eis que começa um bate-boca entre produtores do programa e técnicos da TV Cultura, que leva os técnicos de som a começar a desmontar o P.A. e o palco.

"Durante o soundcheck, no período da tarde, um músico de uma banda, "bateu boca" com um câmera man da TV. A discussão acalorou-se, e chegou às vias de fato. Em meio à pancadaria, alguém pegou um pedestal de microfone para utilizá-lo como arma, e o quebrou, causando a revolta dos responsáveis pelo PA., que também entraram na confusão.Mesmo com a turma do deixa disso separando os brigões, o clima azedou, naturalmente. Até aquele instante, os produtores do programa tentavam convencer os turrões a relevarem, e filmarem normalmente o programa. Contudo, os técnicos do P.A.se solidarizaram com os da TV, e todos se recusaram a trabalhar (...)  Foi quando um produtor da TV Cultura nos abordou, e nos pediu para fazermos um micro show relâmpago, pois eles temiam que o público se revoltasse com o cancelamento das filmagens do programa naquela noite, e iniciasse um quebra-quebra".
LUIZ DOMINGUES.

Então o apresentador Tadeu Jungle explicou à platéia que A CHAVE DO SOL faria um show surpresa para eles, mas que seria sem P.A, sem bateria amplificada, que eles entendessem e tal. Ninguém entendeu bem o que ele queria dizer, mas todos concordaram em esperar Zé Luis e Rubens irem buscar os amplificadores e instrumentos.



Tão logo a dupla voltou, o trio montou tudo lá mesmo. Dado o caráter emergencial da coisa toda  - como sem PA, retorno, mesa de som etc, a qualidade sonora para um teatro com 1mil pessoas gritantes parecesse um rádinho de bicicletária - parte do público pode sentar no palco para ver a banda tocar. E eles tocaram por 45 minutos. Quem estava bem perto ao palco se divertiu até, mas a maioria do povo foi dispersando e indo embora durante a apresentação.

A SEXTA APRESENTAÇÃO. 


Já na condição de preferidos do professor, em 26 de junho A CHAVE DO SOL para então a derradeira apresentação no programa. E melhor de tudo, o registro de estreia chegara da fábrica, especialmente para ser lançado na Fábrica do som.



O grupo já chegou atacando com "Luz". Ao final da mesma, um esbaforido e cansado Luiz Domingues começou a dar seus recados, explicando que aquele era um trabalho autoral de uma banda independente, a que a distribuição do disco era precária, que o mesmo só estava à venda na loja Baratos Afins, ou pelo correio.

Nota na Folha de SP indicando o show.

Começam gritos da galera e vem dois rapazes correndo querendo arrancar o disco das mãos do baixista, que num impulso o jogou para a platéia .... e compacto acabou preso na estrutura de teto do teatro!!!



"Os dois garotos que quase arrancaram-no de minhas mãos, saíram resmungando, e numa fração de segundos cheguei a pensar no quanto o artista passa de uma situação de veneração à de repúdio, num piscar de olhos... Num impulso, ainda fui ao microfone e exclamei : "Foi Deus que quis assim", referindo-me ao fato do compacto ter ficado quase no teto, portanto perdido".LUIZ DOMINGUES.


Sem perder mais tempo, A CHAVE DO SOL apresentou o próximo som, uma novidade aliás, chamada "Anjo Rebelde". Após tocarem a mesma e se despedirem, a banda foi abordada no camarim por um rapaz com o disco que havia ficado preso no teto em mãos e pedindo um autógrafo. Como ele conseguira a façanha? Ele era bombeiro e estava acostumado a escaladas!!!


Nota na Revista Veja sobre esse show.

"Infelizmente o programa saiu do ar pouco tempo depois, por uma mudança de mentalidade na cúpula da TV Cultura (incompreensível, aliás...), e nunca mais houve outro programa tão democrático para exibir bandas novas de trabalho autoral, na TV, sem o famigerado jabá das cartas marcadas".
LUIS DOMINGUES.

Até então pensava-se que somente o apresentador Tadeu Jungle sairia do programa, mas A Fábrica do Som acabou, nunca mais foi gravado outro programa. Todavia, A CHAVE DO SOL continuou se apresentando na televisão, na TV Cultura inclusive. Nunca, contudo, tantas vezes, num mesmo, nem no Realce Baby. Não mais repetiu-se uma recepção tão boa de platéia em programas de televisão, aquela mágica que esteve presente nessas seis apresentações.

Nos anos dois mil, o MusiKaos, na mesma emissora, queria recriar o clima único d' A Fábrica do Som. Uma nova A CHAVE DO SOL chegou a se apresentar, mas o elo entre A CHAVE DO SOL e A Fábrica do Som foi único e insuperável. Não há como ter revival.

Quem sabe a numerologia encontre uma explicação na similaridade de nomenclaturas, pois o vivido nesses vídeos e descritos nesse capítulo é algo tão positivo que não tem explicação.


2 de dezembro de 2014

Quarto capítulo da biografia.

Após perder sua distinta vocalista, e com ela o contrato numa badaladíssima casa de shows em São Paulo, A CHAVE DO SOL tentou evitar a crise e o retrocesso de tocar em lugares pequenos se auto-produzindo. Resultado da empreitada: o primeiro prejuízo da banda! Essa fase de vacas magras, porém, antecedeu a ascensão do conjunto, que muito trabalhou e se dedicou entre as intempéries. Confira a seguir o conto desses meses caóticos de segunda divisão da música que incluíram participações especiais do ROCK DA MORTALHA, PATRULHA DO ESPAÇO, R.P.M., preparação caseira de cola e indisposição com a Polícia Militar do Estado de São Paulo!

O texto abaixo é um condensado dos capítulos 45 a 67 da autobiografia na música, seção A CHAVE DO SOL, do baixista Luiz Domingues.

CONFIANÇA PESA MAIS QUE CACHÊ GORDO: ABRIL/1983 À JULHO/1983.

Acabara a badalação. Findara o gordo cache fixo. A Verônica fora embora levando o Victoria Pub e com ele o contrato de exclusividade. Liberdade! Que fazer com ela? Voltar a tocar em barezinhos menores e inflar o repertório de covers? Zé Luis Dinola, o baterista polivalente, teve uma ideia melhor: alugar o teatro do Colégio Piratininga, o qual ele estou e assim achar o seu próprio público! Situado na Avenida Angélica, o colégio (escola particular) possuía um teatro que era usado somente para atividades dos alunos. O auditório de 300 lugares, que após esse show seria conhecido como Sadi Cabral, não tinha cortinas cenográficas pretas para tapar as coxias. O acertado foi que a banda doaria essas cortinas ao colégio em troca de utilizar o espaço um dia. Promissor começo!




Reitero que o teatro era utilizado só para fins escolares, portanto a direção não fazia ideia de como organizar um show de Rock'n'Roll, ou peça aberta, portanto, nem sabia o que significava ECAD, OMB, alvará de funcionamento, taxas e impostos relativos ao trâmite burocrático de  se fazer um evento para o público de fora. Só realizando apresentações em casas noturnas, A CHAVE DO SOL também não!!! Só foi descoberto que tais coisas podiam significar impedimento 20 dias antes da data do show. Isso sem contar que cabia à banda comprar as tais cortinas, alugar luz e PA (equipamento de som), cenografia, divulgação, e, como seria a apresentação inicial sem a frontwoman... ensaiar novo repertório!!



Primeiro, vamos tratar das taxas governamentais. Luiz e Zé Luis foram os dois sozinhos na Prefeitura, de guichê em guichê buscar compreender e equacionar o problema. Tendo em vista o pagamento de altas taxas e os altos prazos para obtenção dos documentos necessários ("que colocavam o show em risco"), e considerando que a apresentação aconteceria (aconteceu) em um Teatro obscuro que nem existia oficialmente, nossos dois desbravadores das sanções públicas resolveram simplesmente abrir a mão de prestar contas à Prefeitura, Estado e Bombeiros! Foram tentados a dar uma "caxinha" a um funcionário apelidado pelo baterista de "Gordo FDP" até que decidiram também desistir do ECAD, pois a multa de 10% da bilheteria máxima do local excedia o valor da taxa cobrada. No que tange à Ordem Brasileiras dos Músicos (OMB) apenas o baixista Luiz Domingues era membro, o que seria usado como "moeda de persuasão" numa eventual emergência. Sabem o que acenteceu? Só o fiscal do ECAD apareceu!

"Esta aí uma coisa que não falha : o fiscal do Ecad aparece até em picnic familiar...bastou pegar um violão para entreter a família, e ele aparece querendo a lista do repertório para o seu relatório, e 10% da arrecadação bruta...".
Luiz Domingues.

No que tange à divulgação, o grupo disponha de verba apenas para imprimir alguns cartazes, mas não para cobrir a colagem de lambe-lambe. Zé Luis foi enfático: vamos fazer nossa própria cola! O processo da fabricação da cola era demorado e transformou a cozinha da casa do Rubens numa fábrica. Era necessário esperar à noite, após a família do guitarrista se recolher e as empregadas domésticas da casa encerrarem o expediente (mediante acordo com Maria, a chefa das empregadas, que a cozinha seria encontrada por elas na manhã tão limpa quanto foi deixada a noite). Era usado polvilho azedo, água fervente e um pouco de sal grosso. "Infelizmente, aquilo tinha um odor insuportável, sendo uma gosma fétida e nojenta, que causava náuseas",  julgou Luiz Domingues. Outros inconvenientes dessa cola é que ela respingava no carro, deixando a roupa de todos com cheiro acre. A cola profissional era mais grossa, menos líquida, de maior eficácia. Na primeira noite, a situação foi difícil, já nas posteriores, o processo de obtenção do grude foi aperfeiçoado. Felizmente, não era muito material a ser afixado.

"Saíamos para a rua por volta de meia-noite, com latas de tinta, improvisadas como vasilhas desse líquido asqueroso e o Zé Luis providenciou cabos de vassoura para adaptá-las às broxas de pintura de paredes, como ferramenta na aplicação. Seguimos nós três, no carro do Rubens e uma ou outra noite, tivemos ajuda de amigos abnegados, seguindo em outro carro. Mas o grosso do trabalho foi executado por nós mesmos (...) E assim foram noites e noites, tornando essa produção cansativa, pois enfrentávamos a burocracia de dia, ensaios e outros detalhes de produção".
Luiz Domingues.

Não propriamente para divulgar o vindouro show de reestreia, mas no intuito de "marcar" o nome da banda, A CHAVE DO SOL começou a se valer de pichações. Após colar os cartazes, o grupo saia e pichava o seu nome em muros dos bairros da Zona Sul (Saúde, Ipiranga, Vila Mariana); objetando posteriormente que essa divulgação abarcasse toda a capital de São Paulo. A pichação perto da estação de metro da Vila Mariana foi a mais resistente, durando até 1986. A última dessas ações se deu na companhia do poeta Julio Revoredo. A quadrilha foi pega em flagrante por uma viatura!!! Por sorte, os policiais foram condizentes com os jovens, somente revistando e confiscando as latas de spray, sem condução à delegacia. Foram alertados, contudo, que seriam autuados na reincidência.

"De fato, não foram poucas as vezes que pessoas me falaram terem visto tais pichações nesses muros e depois que a banda começou a ficar famosa, após termos começado a aparecer na TV, muitas pessoas contaram-me que viam essas pichações, mas não faziam a menor ideia do que significa aquilo, mas depois que despontamos na mídia, começaram a associar tal manifestação abominável, à existência da banda".
Luiz Domingues.


Chegou o dia 30 de abril de 1983, sábado, a data do show! Antes das oito da manhã, o polivalente Zé Luis Dinola já estava pendurado, furadeira em mão, numa escada de pintor de paredes para colocação dos trilhos das cortinas. O visual do show foi optimizado por uma ideia de última hora de Rubens. Colar nas cortinas posteres de seu acervo pessoal com imagens fantásticas dos ilustradores ingleses Roger Dean (famoso por seu trabalho com o YES, URIAH HEEP etc) e Roadney Matthews (notório por seu trabalho com o MAGNUM, ASIA, THIN LIZZY etc). O pessoal do PA (alugado), trouxe consigo duas torres laterais com oito spots de 500, também alugadas, para cada lado do palco. Iluminação fraca, assim como o número do público presente: 65 pagantes, num lugar que comportaria 300 presenças.




Todo repertório autoral foi apresentado ao público, com o Rubens e o Zé Luis cantando. De covers, foram poucos, "ainda bem": "My My Hey Hey" do NEIL YOUNG, uma do JIMI HENDRIX EXPERIENCE e "Tenneage Love Affair" do RICK DERRINGER. Luiz Domingues, surpreendendo, cantou duas músicas: a autoral "Intenções" (que já foi citada na biografia) e "Jumpin' Jack Flash" dos THE ROLLING STONES. O público ainda era aquele espectro de amigos e parentes, tanto melhor para o jovem grupo que aprendeu nessa feita (a primeira experiência em teatro), o quão diferente é se apresentar de se apresentar numa casa noturna, sem deixar o público esfriar.



Essa foi, também, a primeira vez que A CHAVE DO SOL tomou prejuízo em show. O lucro líquido da bilheteria não foi capaz de cobrir metade das despesas. O que sobrava dos altos cachês do Victoria Pub foi indo embora... assim como a ilusão de ter-se formado um público espontâneo de admiradores do trabalho do grupo. A banda precisava se readaptar. E isso foi buscado de imediato. A própria irmã de Rubens, a Rosana Gióia sugeriu uma amiga como vocalista, que havia, inclusive assistido o grupo no Victoria Pub com a Verônica nos vocais.

"Atrás do Rubens, encostada como guitarra sobressalente, uma Fender Mustang que ele quase comprou nessa ocasião. Estava emprestada para ele testá-la e de fato, a usou em alguns momentos de shows que fizemos no Victória Pub", LUIZ DOMINGUES.
Seu nome era Soraya Orenga. Loira, muito bonita e com uma bela voz, certamente em condições de ser vocalista d' A CHAVE DO SOL, ainda que seu talento não fosse tão esplendoroso quanto da Verônica. Ela tinha cantando em duas bandas covers anteriormente, FERRO VELHO e ALHURES. Ela não se interessou muito pela banda, ainda mais no momento crítico em que ela se apresentava, só fez teste, mas ficou ainda um tempo em órbita do conjunto, tendo cantado backing vocals na música "Luz", do primeiro lançamento do conjunto (que foi gravado em janeiro de 1984). O grupo continuou tentando e chegou a outra vocalista, essa morena e chamada Regiane. Ela vinha das banda SUPER BASTIÃO, porém seu estilo era mais voltado para MPB de dinâmicas mais leves do que para o punch pesado do Rock'n'Roll. Ela desapareceu do circulo da banda de imediato após as audições.


Decididos a seguir, por enquanto, como trio, Zé Luis chegou ao ensaio explicando que encontrara seu amigo de longa data, o guitarrista Fernando Deluqui, que também estava com uma banda autoral; chamada IGNOSE, Deluqui propusera um pacto de ajuda mutuas entre as bandas, de se apresentarem juntos, buscarem shows uma para a outra. Os grupos se conheceram e encontraram um no outro pessoas jovens (os d'A CHAVE DO SOL era um pouco mais velhos), bem educados e com interesses em comuns. Aproposta funcionaria muito bem, se não um detalhe: o IGNOSE era uma banda PUNK!

"(...) no meio do furacão oitentista, a ultra segmentação de tribos era uma realidade indiscutível, e dentro dessa perspectiva de animosidades radicais, não era recomendável que uma banda Punk se apresentasse no mesmo show com uma banda de cabeludos hippies e de orientação setentista, por motivos óbvios e de nada importava dizer aos radicais xiitas, que as bandas eram amigas e se respeitavam mutuamente, e indo além, tinham pacto de colaboração".
Luiz Domingues. 

Tal cooperação, porém, nada vingou, só uma visita a um salão num bairro do Sacomã, próximo ao Ipiranga, arrumado pelo Rubens, que estava começando a abrigar shows de bandas autorais. Ambos os grupos não gostaram das instalações, do dono do lugar e concluíram que "dois ilustres desconhecidos" de apresentando num lugar de difícil acesso e com pouca estrutura ("parecia o salão do Cerasa") era prejuízo na certa. Já indo embora, os grupos perceberam que havia uma terceira banda ensaiando num sala ("com vedação de caixas de ovos"), pois os moços deste power trio saíram para fumar, descansar etc. O nome da banda era CRISÁLIDA e seu baixista e vocalista era muito conhecido na cena rocker underground de São Paulo, já tendo conseguido algum reconhecimento nos anos 70: Orlando Lui, do ROCK DA MORTALHA!! Como era período vespertino de um dia de semana, houve o convite para assistirem um pouco do ensaio, prontamente atendido. O som do CRISÁLIDA não era pesado como o ROCK DA MORTALHA (cuja densidade o fez ser apelidado de BLACK SABBATH brasileiro) e era mais anacrônico que A CHAVE DO SOL; pois buscava evidentemente inspiração no período setentista do RUSH, Não obstante o entrosamento e qualidade, sem chances de sobreviver naquele underground hostil.



No que tangue ao IGNOSE, após poucas ligações o contato se desfez e o grupo ruiu. A CHAVE DO SOL nunca mais os viu, até que, em 1985, eles reconheceram o Deluqui como guitarrista do R.P.M., que acabará de mega estourar na mídia!! Luiz Domingues já sabiam da banda, "sonoridade de plástico, com os seus membros usando visual de dândis e fazendo caras & bocas de artistas metidos a "avant-garde", que se apresentava em bares ainda mais underground que os os d' A CHAVE DO SOL, como o Madame Satã, mas nunca imaginaram que seu antigo colega estava vivendo esse embalo. Já pensou se o pacto de cooperação tivesse sobrevivido ao IGNOSE?  Em se tratando do CRISÁLIDA, o grupo também logo acabou. Contudo, Orlando Lui formaria outra banda, o GOZOMETAL, se adaptando à estética oitentista e passaria a conviver bastante com A CHAVE DO SOL no futuro.



Procurando mais lugares para divulgar seu trabalho, a banda começou a ensaiar uma série de covers, com Zé Luis e Rubens dividindo as vozes e, ainda em maio, gravou uma demo caseira e fez um release de divulgação. A demo era precaríssima e o portfólio indicava as bandas anteriores, shows no Victoria e uma matéria de jornal. Novamente, a ideia era procurar um meio-termo entre o Cafe Palhetas e o Victoria Pub (ver capítulos anteriores). A grande maioria dos bares nem se dignava a responder. Um deles, o Calabar, que ficava em Cerqueira Cesar, ao lado da Av. Paulista, porém solicitou que o grupo viesse buscar seu material, pois NÃO seriam contratados. Seria um gentiliza muito grande do barzinho, não? Não! Além do material grafico (release) estar todo rabiscado, ainda gravaram um jogo do Santos Futebol Clube (com gol do Serginho Chulapa) por cima!




Esperando respostas dos bares, ele se lembraram: o cara do VAN HALEN! Esse moço, cujo nome perdeu-se realmente trabalhava na produção que agora trazia o KISS ao Brasil. Claro, A CHAVE DO SOL ainda estava muito começo e sem condições (sem ser conhecida do público) para tal evento internacional, mas resolveram tentar. O sujeito foi muito legal, pois, ainda com a negativa deu de presente para o Rubens cerca dez ingressos para o grande concerto internacional. Um outro contato relevante desta fase foi com o Festival de Iacanga, com grandes nomes do Rock e MPB. Novamente, não receberam resposta. A resposta que veio foi do programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura, que trataremos em detalhe no capítulo a seguir. Por agora, basta dizer que A CHAVE DO SOL foi muito bem tratada pela produção do programa ("o que é raro nesse meio") quando da entrega do material e a ligação confirmando participação com data e horários para o soundcheck, era - até então - a melhor coisa que já acontecera à banda.



O astral subiu muito e a banda ainda tinha a apresentação do "Morro da Lua" a cumprir, no dia 24 de junho. Proposto inicialmente por um fã de QUEEN, que era sócia do Freddie Mercury, que eles conheceram no Victoria Club e que era dona de uma pista de Motocross. Essa apresentação começou com a ideia d' A CHAVE DO SOL fazer as vozes de Deacon, May e Taylor para o fã cantar como seu ídolo. Um ensaio aconteceu e não funcionou. O moço, chamado Fábio, propôs então um show com dublagem, já que não houve química entre a banda e ele como vocalista. Diante da recusa, veio a oferta que se tornou realidade: um show noturno d' A CHAVE DO SOL, num lugar sem iluminação, em meio a exibição de motos. "Achamos em princípio, uma bizarrice, mas sem perspectivas melhores e achando que poderia ser um agito interessante, topamos a loucura. Ele se prontificou a providenciar um gerador para suprir as nossas necessidades de equipamento e assim, aceitamos tocar, pela bilheteria do evento", recorda Luiz Domingues em sua autobiografia.


Na inexistência de fotos dessa apresentação no Morro da Lua, outra do Colégio Piratininga.
No dia do evento, pleno inverno e descampado, a banda teve de ir de tarde para conseguir montar tudo ainda com claridade. O pequeno P.A. de ensaio, o gerador arrumado pelo Fábio e como palco... a carroceria aberta de um caminhão... como iluminação, faróis de carros! Muitas quedas, colisões e manobras malucas, e perigosas,  rolaram no escuro, agradando da banda somente o Zé Luis (que é fã dessa ceara de esportes radiciais), enquanto o grupo esperava para se apresentar. Dado o sinal verde, cerca de 300 pessoas pararam para assisitr A CHAVE DO SOL! Os motociclistas não pararam, dando rasantes sobre a banda e a platéia! Como o som se dissipava muito (pois era pouca potência para um lugar muito amplo), foram privilegiadas as músicas instrumentais, já que só que estivesse bem na frente conseguiria ouvir com mixagem audível. Não obstante todas as dificuldades técnicas, o público que assistiu ao show aplaudiu bastante. Não foi possível desmontar o palco de madrugada, tendo de voltar na tarde seguinte, ainda mais porque os motociclistas queriam liberar o caminhão, que ficou no meio pista, jogando as motos como pressão. Um dos roadies, amigo do Rubens, havia ido ajudar com uma calça de veludo branca... e capotou na lama carregando a caixa de PA.... o que aconteceu com a calça? Enfim, foi um show sem condições técnicas, mas com muitas curiosidades e peculiaridades na carreira do grupo.

"Outro show bacana foi no Morumbi, numa pista de moto cross chamada Morro da lua.. Fazia muito frio, tocamos em cima de um caminhão... A certa altura os malucos achavam que, na neblina. As motos eram ets pousando...".
Rubens Gióia.

Novamente, a figura do PATRULHA DO ESPAÇO, na pessoa do Júnior cruza positivamente a trajetória d' A CHAVE DO SOL. Ele convidará a banda amiga para as duas primeiras apresentações desde o show do VAN HALEN, quando este sofrera um acidente (janeiro de 1983) que o deixara até sem poder tocar. A primeira feita, foi numa casa noturna em Santos, um tanto quando desconcertante. Se chamava HEAVY METAL, era frequentada pela jovem burguesia do litoral, não os rockers, e antes do Hard Rock da PATRULHA rolou um show intimista de M.P.B. do violinista FILÓ! O lugar contudo, por ser na avenida da orla, e adaptado de um cinema (com mesas onde ficariam as poltronas) gerava excelente acústica, assim como adequados palco, camarim e coxia. A ideia era conhecer o gerente do local e tentar encaixar A CHAVE DO SOL na agenda da casa; o que não funcionou. O segundo convite, era para ser a banda de abertura de um mega-show da PATRULHA DO ESPAÇO em Limeira, interior de São Paulo!



Às seis da manhã de 09 de julho os dois conjuntos saíram num ônibus fretado (alugado da banda de bailes PHOBUS) da Barra Funda! Além de toda excitação de viajar com uma banda grande, com equipe, roadies, muito equipamento de P.A. e iluminação, matéria publicada no jornal da cidade e expectativa de ginásio lotado, era o primeiro show d' A CHAVE DO SOL fora de São Paulo... e o que eles não sabiam, seria o melhor show da carreira até então! Após o soundcheck, feito no esquema que quem toca por último arruma o som primeiro, uma multidão tomou o clube Gran São João. A contagem de bilheteria era 2500 pagantes, mas os Luiz Domingues especula que eram 3500 pessoas dentro do lugar. As autorais foram "Luz", "18 Horas", "Atila", "Intenções" e "Utopia". De covers, rolaram "Tie Your Mother Down", QUEEN, "Hey, hey, my, my", NEIL YOUNG, "Blue Wind", JEFF BECK, "Blue Suede Shoes", CARL PECKINS e "Purple Haze" e "Foxy Lady", do JIMI HENDRIX EXPERIENCE.

O público reagiu muito bem à banda desconhecida, com picos de euforia no solo de bateria (!?!) do Zé Luis, no malabarismo Hendrixianos do Rubens, mais inusitado ainda, no solo de baixo de Luiz! Havia um grupo isolado de 20 pessoas gritando "Pauleira, Pauleira" nos intervalos das músicas, que mudaram o coro para "debulha, debulha" durante esse último! O próprio Júnior deu sinal para a banda tocar mais após a meia hora acertada esgotar, levando o show à duração de 40 minutos. A CHAVE DO SOL não ganhou cachê por essa apresentação, porém lucrou algo que dinheiro algum dá: confiança!



É da gravação desse show que foi resgatado o áudio do promo-video de "Intenções". O show todo foi registrado, existindo um projeto do baixista Luiz Domingues, de um dia disponibilizar o show todo, não obstante a qualidade precária. A PATRULHA DO ESPAÇO recebeu comedidamente A CHAVE DO SOL após o show e fizeram sua apresentação de maneira apreensiva, notadamente pelo momento que viviam de voltar agora à ativa.

"A oportunidade de fazermos um show de condições boas e para um grande público, nos possibilitou uma grande confiança para enfrentarmos o público do Sesc Pompéia, três dias depois e isso seria vital para uma mudança radical na nossa carreira, doravante".Luiz Domingues.

Após voltarem à Barra Funda e se despedirem, A CHAVE DO SOL voltava triunfante, confiante e esfuziante para o compromisso que acontecera na quarta-feira posterior a esse sábado. Apontamento esse que se repetiria e os faria famosos. A FÁBRICA DO SOM e seus desdobramentos, no próximo capítulo da biografia d ' A CHAVE DO SOL!